A Casa da Árvore

A Casa da Árvore é um blog que remete o leitor ao universo fantasioso de uma menina, reclusa em seu mundo, que mora no alto de uma jaboticabeira e, de lá, publica posts em forma de contos, crônicas e poesias.


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Créditos:
Textos: Maíra Viana
Arte: Rodrigo Franco
Layout: Victor Miguel

Terça-feira, Junho 16, 2009

Enquanto dorme o mundo lá fora...



Permaneço de pé aqui dentro. Caminho pela casa como um bicho estranho acuado entre quatro paredes de uma prisão que eu mesma criei. E dói muito não ser orgulho para ninguém , dói muito chegar à velhice sem ter a lembrança de um dia ter sido jovem, dói olhar os amigos bem-sucedidos, dói não ler os jornais todos os dias, dói não ser boa em nada, dói viver à sombra de um talento fingido, dói ser a farsa do dia-a-dia, dói ser quem sou, dói ver os livros nunca dantes folheados na estante da sala, dói a sensação de praticamente não existir, de estar morta em vida, de apenas vegetar num corpo alheio aos desejos que finjo sentir. A máscara pesa no rosto, o espelho reflete a feiúra óbvia e o relógio planta cabelos brancos num retrato fiel da minha paisagem. É penoso saber que não posso confiar em nada que vá além de mim mesma, é penoso saber que só posso acreditar no que posso tocar e que, talvez, até isso não seja real. O mundo que agora dorme lá fora pode ser apenas uma armadilha, uma realidade paralela ou o sonho de alguém em Marte. É penoso e dói ser quem sou, me perguntar o que me pergunto, chegar às conclusões que chego. E é por isso que, enquanto dorme o mundo lá fora, eu permaneço de pé aqui dentro.


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"Enquanto dorme o mundo lá fora..." by Maíra Viana is licensed under a Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License.

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Publicado por Maira Viana Barros em 12:32 PM

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Quinta-feira, Fevereiro 19, 2009

Observando as mais variadas flores do mundo...



Parace que foi ontem. Arrumei as malas e desapareci. Deixando trás todas as pessoas do mundo. As chatas, as acéfalas e também as tediosas. Pois todas elas escondiam espinhos em suas falas, em seus olhares e em seus gestos. E nunca fui boa em desviar de farpas, quiça espinhos. Arrumei as malas e desapareci. A casa da árvore, então, me acolheu. Figura onírica de minha infância, era a casa. Do alto dela, eu imaginava a preocupação de todos ao darem por meu sumiço. Mas, com o passar do tempo, calculei que se acostumariam com minha ausência. A tudo se acostuma. E, pendurada nesta casa, guardei meus slêncios, meus escritos, minhas dores e meus documentos. Fiz do quarto esconderijo para minha esquisitisse, minhas calcinhas e meus sonhos. E ninguem precisa saber das luzes da minha casa. Quando acendo, quando apago e quando as faço piscar. Ninguem precisa saber da minha demencia, da minha falta de tato, das minhas insonias e das minhas compulsões. Realmente ninguem precisa. E nenhuma outra casa, assim como nenhuma outra árvore, me acolherá da mesma forma que esta me acolhe. Porque esta é minha e me cabe como nenhuma outra jamais me coube. Com o passar do tempo me acostumei a vivers sozinha. A tudo se acostuma. E do alto desta casa muita coisa se fez clara. E durante tantos anos, observando as mais variadas flores do mundo, do canto da minha janela, percebi que todas elas traziam consigo alguns espinhos. E nunca fui boa em desviar de farpas, quiça espinhos. Mas, com o passar do tempo, me acostumei a conviver com eles. Foi então que entendi que flores e pessoas podem ter muita coisa em comum. E que a tudo pode-se acostumar. Bastar, com o passar do tempo, aprender a lidar. Parace que foi ontem. Arrumei as malas e desapareci. Deixando pra trás todas as pessoas do mundo. As adoráveis, as dedicadas e também as carismáticas. Eu apenas não sabia que poderia, com o passar do tempo, me acostumar a lidar com todas elas.




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Publicado por Maira Viana Barros em 10:25 AM

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Sábado, Janeiro 03, 2009

Do alto de todas as casas não se morre de tédio




Do alto dessa casa, pouca coisa faz diferença. Vinte de julho, trinta e um de dezembro, primeiro de janeiro. Realmente, tanto faz. O sol nasce todos os dias, sem nem considerar nosso calendário. 1980, 2008, 2020. Que diferença faz? Pra mim e pro sol, não faz nenhuma. Os dias se parecem uns com os outros. E não entendo porque as pessoas do mundo fazem tanta questão de "fatiar o tempo" em pedaços disformes. Anos, meses, horas, segundos. Acho engraçado quando me aconselham a "dar tempo" ao tempo. "Como assim?", me pergunto em pensamento. Não sei. Mas gostaria muito de saber. Não costumo demarcar o tempo pois não o vejo passar. Os dias são iguais. Não uso relógio de pulso e aquele outro, na parede da cozinha, simplesmente não funciona. Faltam-lhe pilhas. Pilhas que sempre esqueço. Assim como esqueço de comemorar datas festivas. Assim como esqueço de ligar pros amigos em seus aniversários. Apenas esqueço e pronto. Porque não faz diferença. Do alto dessa casa, pouca coisa faz diferença. Natal, páscoa, carnaval. Tanto faz. O sol continua lá, nasce e se põe do mesmo jeito. Será que ele sente tédio? Se eu raiasse todo dia, sempre daquele jeito, eu também sofreria de tédio. Vai ver é por isso que, às vezes, chove. Só pra fazer diferente. Acho que os dias se diferem uns dos outros por meros detalhes. Um deles é a presença, quase sempre temperamental, da lua. Garota de fases. Essa não sofre de tédio, aposto. Cada semana tá de um jeito. Realmente faz a diferença. Mas mesmo ela, muitas vezes, se repete. Tudo se repete. A começar pela minha vida: Um enorme punhado de horas cheias dos mesmos "bom-dias!", "como vais!" e "obrigados!". Não uso calendários e aquela agenda, acima da escrivaninha, não funciona. Faltam-lhe anotações. Anotações que sempre esqueço. Assim como esqueço de checar a secretária eletrônica. Assim como esqueço de retornar as ligações. Esqueço e pronto. Porque não faz diferença. Os dias se parecem uns com os outros mas, nos detalhes, encontramos as diferenças que nos fazem aprender. E quando aprendemos sentimos o tempo passar. E quando sinto, ja passou. E só ficou o que aprendi. Do alto dessa casa, pouca coisa faz diferença, dentre elas se encaixam as coisas que aprendemos...e a lua, com todas as suas fases. Então, começo a entender um pouco mais sobre os motivos que levam as pessoas do mundo a fatiar o tempo em pedaços disformes. Embora o meu tempo eu prefira não demarcar com muita precisão. Por não saber quanto tempo ainda tenho para fatiar. E o sol, do alto de todas as casas, não morre de tédio, somente se diverte. Vive a dar risadas, do quão são diferentes as pessoas do mundo e seus dias, aparentemente, "iguais".





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Publicado por Maira Viana Barros em 4:16 AM

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Segunda-feira, Dezembro 01, 2008

Travesseiros Imaginários



Todo dia eu faço uma aposta. As pessoas nadam em suas próprias mentiras. Passam por cima do sol para angariar o que lhes é aprazível. E seguem insones. As cabeças cansadas já não cabem mais nos travesseiros de costume. As palpebras pesam à medida dos anos. As pessoas seguem pisando em seus chãos, em seus céus, em seus sóis e em si mesmas. E se martirizam a cada segredo guardado na estante sustentada em madeira e remorso. As pessoas passam a vida tentando ficar impunes enquanto eu almejo apenas ficar imune a todas elas. E quando já não há mais espaço entre madeira e remorso, as pessoas tentam outros travesseiros que abracem generosamente suas cabeças cheias de culpa. E se aproximam umas das outras em busca de perdão, em busca de algo que as leve à redenção. E seguem cegas e insones. À procura de seus travesseiros imaginários. E adoecem envenenadas por seus próprios segredos. Todo dia eu faço uma aposta. Enquanto as pessoas morrem afogadas na piscina de mentiras que cultivam em seus quintais. As cabeças são grandes demais para as fôrmas dos travesseiros vendidos nas lojas. E pesam. Pesam a medida dos anos. E quando estendo a mão a alguém é quase sempre um lapso. Cada aceno em direção ao outro é risco de queda livre. E sempre aceno. E sempre despenco. Mas meu consolo é minha estante. Sustentada em madeira e fé. E meu travesseiro tem a medida de minha cabeça: leve. E ainda assim, todo dia eu faço uma aposta. E todo dia eu perco.





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Publicado por Maira Viana Barros em 9:23 PM

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Domingo, Novembro 02, 2008

O que mais quer levar embora de mim agora, seu vento vilão?



O vento de fora agora cismou de soprar aqui dentro. Revira as coisas atrás da estante. Escancara portas e janelas. E me empurra. Pra fora. Pra longe daqui, pra perto daí. Seguro firme. Cravo as unhas nas árvores mais frondosas. Sangro até fincar. Lá fora não é ambiente pra mim. Mas ele insiste, o brincalhão. Sopra como se me fizesse um favor. Entorna canções, lembranças e lugares de ontem. Cacarecos que ensaio me desfazer faz tempo. E nunca me desfaço. Nunca me satisfaço. E disfarço...enquanto o vento me empurra pra fora do mundo ou sei lá pra onde. Nada fica firme por muito tempo. Finco até sangrar. Ficar é uma escolha que eu fiz faz tempo. Nada mais me cabe a não ser a minha casa. Casinha. Pequena. Caixinha em que me encolho. Me encaixo. Me recolho e me acho. Não entendo esse sopro todo, essa ventania que me invade. O grande amor ja passou por aqui, já parou, já ficou...e já foi. Não segurei firme, nem finquei unhas, apenas sangrei. E deixei ir. O vento levou sei lá pra onde. O que mais quer levar embora de mim agora, seu vento vilão? Pra quê tanto bagunçar? Deixe o silêncio e a paz em cima da mesa. E as coisas atrás da estante, se quiser, pode levar. Só me deixe a sós comigo, por mais algum tempo. Afinal, ainda me resto. Perto daqui e bem longe daí. E quando cismar de soprar aqui dentro de novo, pense duas vezes. E vá soprar em outro terreiro, faz favor.






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Publicado por Maira Viana Barros em 4:24 PM

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Sábado, Agosto 16, 2008

À tudo respondo que tanto faz



O vento me empurra pra fora do mundo com tanta força que chega a bater as janelas de casa. Mas pareço ficar. Mesmo sabendo que minha existência não fará a menor diferença. À tudo respondo que tanto faz. Escolhas são nocivas. Escolhas sempre chegam acompanhadas de expectativas. E para cada expectativa, uma decepção à altura. As pessoas criam seus infernos particulares à medida dos anos. Alimentam seus bichos interiores, preenchem seus sacos de lixo...até não poder mais. E depois não conseguem se achar em seus próprios espelhos. Parecem figuras alteradas por uma lente de aumento, distorcidas na forma e na cor. Amanhecem transmutadas em monstros de quatro olhos. E não sabem porquê. Nem querem saber. Estão sempre atrasadas. Correndo de lá pra cá. O relógio lhes mantém ocupadas grande parte do dia. A pressa é uma engenhosa invenção da humanidade. As pessoas contam as horas para se distrair do que lhes é irremediável. E me pergunto com freqüência: a quem interessa? a quem o que eu penso interessa? a quem a minha vida interessa? À tudo respondo que tanto faz. Me nego a fazer mais escolhas. Eu sempre erro. E não sei porquê. Nem quero saber. A pressa me acompanha grande parte do dia, o problema é que, à noite, ela adormece e eu não. O vento me empurra pra fora do mundo com tanta força que chega a bater as janelas de casa. Mas, ainda assim, teimo em ficar.







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Publicado por Maira Viana Barros em 10:41 PM

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Quarta-feira, Julho 23, 2008

Para cada escavação, uma escora no lugar



Estou em obras. Tudo em mim desmorona. O controle remoto da tv já não atende mais ao comando dos dedos cansados. Os pés ja não sentem a terra firme. O estomago chora os sonhos embalados em sacos de lixo. Para cada martelada, um olhar ao chão. Para cada céu, um inferno à altura. E cada espelho relfete o monstro que lhe convém. Cada um com o seu, cada um na sua. Canta a furadeira enquanto falo do que dói em controversa sinfonia. Meus medos me procuram sete vezes ao dia. Quase sempre cedo. Quase sempre tardo. Meu ventre é uma caverna distante cheia de ecos do além. A terra firme já não sente mais os pés cansados. Para cada lágrima, uma pá de cao. Para cada escavação, uma escora no lugar. Tudo isso acontecendo aqui dentro e tanto silêncio lá fora. Estou em obras. Tudo em mim desmorona. O apresentador entrevista as pessoas em suas festas particulares. Estarão elas em obras também? Como conseguem andar por aí impunemente? Como trocam de vestido enquanto sangram os sete dias da semana? Me divirto em frente à tv. Imagino as pessoas e seus infernos particulares. Cada um no seu, cada um na sua. Quase sempre sede, quase sempre tarde. Para cada um, um monstro. E para cada sonho, um saco de lixo que lhe convém.








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Publicado por Maira Viana Barros em 9:05 AM

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Domingo, Maio 25, 2008

Sombra em excelência...



Chegava em casa e dava de cara com a solidão. Esparramada no sofá, impondo-lhe canais de tv, ocupando os espaços da sala, incomodando o quanto podia. Aquele convívio estava ficando impossível. Alguém ia ter que sair. A casa já era muito pequena. Era muita audácia tomar para si a cozinha, o quarto e o banheiro. Bagunceira, barulhenta, folgada era a solidão. E comilona também. Tomava os iogurtes todos de uma vez. Mal-educada ainda arrotava. A solidão era mais que uma hóspede, era sua sombra em excelência. Do alto da jaboticabeira vivia a escritora, a questionar lá com seus botões, que diabo de escolha havia feito. Bastava pensar em sair de casa, pronto, tudo nela se derramava em motivos para não fazê-lo. Não ia ao teatro porque o dia se fazia quente, não visitava parentes para não lhes dar trabalho, não frequentava festas ja que, claro, não saberia o que vestir. Seu pensamento nem atravessava as portas que dão pra rua, que dirá seus pés. Resignada, tentava apenas se acomodar no pouco espaço que ainda lhe restava. Sua solidão era a pior colega de quarto que já tivera.







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Publicado por Maira Viana Barros em 11:17 PM

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Terça-feira, Abril 01, 2008

Cama para solidão....



Escolhera viver só. Achava que estaria melhor consigo mesma do que com alguém que estivesse ali somente para passar o tempo. Acreditava na ciência, na lógica. Buscava um sentido. Pois tudo o que acontecia tinha de ter um porquê, mesmo que para ela fosse dificil compreender qual. Era cética. E mais: pagã, atéia e só. Era forte. Era fraca. Dependia. Do dia, dos porquês que encontrava pelo caminho, das contas que tinha a pagar e, principalmente, do ciclo menstrual que insistia em desregular o seu senso-de-humor. Vez ou outra, abria as janelas de casa e tinha uma dimensão maior de sua história. Via seu espaço e a mata ao redor: aquele silêncio fazendo cama para solidão; a certeza da segurança que vai além de chaves e fechaduras; a desesperança de qualquer visita ou mágoa sem aviso prévio. Assim era a menina: excessivamente só. Insistia na solidão, afinal, era muito mais tranquila a sobrevivência longe do convívio com as pessoas do mundo. Evitava a intimidade. Encontrava em curtas saudações uma maneira fácil e prática de lidar com as situações cotidianas. Por isso, esforçava-se ao esboçar expressões como: "Boa Tarde", "Como Vai?" e "Até logo". E era só. Nos momentos de crise, sentia-se melhor ao constatar que poderia, a qualquer momento, optar pelo abandono de si mesma. Fazia-se livre para se reinventar como melhor lhe conviesse. Sentia-se sorteada por ter direito às escolhas da vida e, dentre tantas, talvez a mais acertada tenha sido essa. Escolhera viver só. Achava mesmo que estaria melhor consigo própria do que com alguem que estivesse ali somente para ocupar um lugar no espaço.






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Publicado por Maira Viana Barros em 12:12 AM

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Quinta-feira, Março 13, 2008

A imensa corda da vida....


Do alto da jaboticabeira, percebia o dia passar por sua janela acenando, de passagem, quase sempre alheio à transitoriedade da vida dentro daquela casa. E ele sempre passava, o dia. E vez por outra acenava. Mas nunca encontrava tempo para um café que fosse. Por mais que ela almejasse um "cadinho" de dia, ele nunca podia parar. Lembrava da época da escola, do recreio, quando as outras meninas giravam uma imensa corda com destreza, forçando quem quisesse brincar, a entrar já pulando, sem pestanejar. Ficava sempre de canto a espiar. Queria mas não podia. Pensava, pensava...e deixava pra lá. Assim era também com o dia, que sempre passava. Acenava mas não entrava. Fazia menção para que ela saísse e se juntasse a ele em sua peregrinação. Andariam em comitiva mundo afora: ele, ela e mais um punhado de horas pedalando sem parar. Recusava o convite e permanecia de canto, sempre a espiar. Queria, mas não podia. Precisava ao menos ter tempo para pestanejar. O risco de esbarrar na imensa corda da vida era grande. Que faria ela se caísse e ralasse o joelho? O dia não voltaria para acudi-la. As horas ririam de seu embaraço. E a corda da vida não hesitaria em lhe oferecer, a cada giro, um novo enroscar de pernas. Do alto da jaboticabeira, pensava. Pensava...e deixava pra lá.






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Publicado por Maira Viana Barros em 6:40 PM

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Domingo, Fevereiro 17, 2008

Todas as perguntas do mundo....


Era uma casa alta sustentada por galhos secos de uma frondosa árvore. Era uma menina arguta que já guardava em si todas as perguntas do mundo. Era madrugada. Acordou assustada com os sussurros que pareciam vir da cozinha. Continuou imovel imaginando quem diabos estaria ali àquela hora e como poderia ter entrado se ela mesma tinha certeza de que conferira todas as trancas horas antes. Então os sussurros se tornaram mais audíveis. As vozes pareciam discordar de algo. A menina decidira, corajosa que era, ir até a cozinha e levou consigo uma tesoura que havia em seu quarto. "É sempre bom estar armada quando não se sabe o que pode aparecer pelo caminho", pensou lá com seus botões. As luzes estavam todas apagadas e quanto mais ela tateava paredes e quadros , mais alto percebia o tom das vozes em desenfreada discussão. Finalmente chegou à cozinha e, num sopetão, acendeu a luz. Lá nada havia. Sua cabeça estava tomada por interrogações. "De onde vem esse barulho todo, afinal? Quem ou o que gritava tanto?", perguntava a si mesma. As vozes mantinham a mesma frequencia e ela, corajosa que era, correra até o banheiro a fim de conter a briga que parecia acontecer dentro de sua casa. No entanto, lá nada havia. Sentou ao lado do vaso sanitário e continuou ali por um longo tempo. Ouvia os argumentos de um lado, os rebates do outro. Ora dava razão para uma voz, ora dava razão pra outra. E estava já tão entretida com aquilo tudo que nem percebia que as vozes em desordem e toda aquela algazarra estavam em "acontecência" dentro dela mesma. Era uma casa alta sustentada por galhos de uma frondosa árvore. Era uma menina arguta que já travava em si todas as lutas do mundo.







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Publicado por Maira Viana Barros em 11:20 PM

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Sábado, Janeiro 19, 2008

Sobre tantas coisas...



E lá estava ela, pensando só, ali com seus botões. Tinha mania de se perguntar. E perguntava. Mas nem sempre se respondia. Vai saber porque diabos se perguntava tanto sobre tantas coisas. Talvez porque já tivesse perguntado pra muita gente por aí. Talvez, muita gente por aí, não tivesse conseguido responder tanto sobre tantas coisas. Gostava de se refugiar nas ramificações frondosas de seus próprios pensamentos. A janela aberta sugeria paisagens de outras árvores, rios, vilarejos, cidades...grandes e pequenas. E assim, se vendo, se perguntava quem haveria de ser ela se acaso tivesse escolhido a primeira cidade, a barra da saia, a comida posta. E se tivesse ela escolhido o casamento? Se tivesse voltado atrás? Se tivesse reagido certa vez? Quem haveria de ser ela? Ela mesma se respondia mas depois duvidava de suas próprias explicações. Gostaria de voltar no tempo e mudar um instante qualquer de sua vida. Se ainda assim, a sua história continuasse a ser a mesma, da menina e de sua casa na árvore, descobriria logo que nunca teve escolha. Se acontecesse então de outro jeito, um tanto assim diferente, e não houvesse mais nem menina e nem casa na árvore, acabaria por entender que, cada escolha que faz, altera ruas, casas, sonhos e verbos da sua história. E das histórias de muita gente por aí. E assim passava o tempo - sempre pra frente, nunca pra trás - sempre se perguntando, se respondendo, se duvidando. E se perguntando de novo, até ter certeza. Gostava de se refugiar nas ramificações frondosas de seus próprios pensamentos. E ali ficava, pensando só, lá com seus botões, se em algum outro lugar, no tempo ou no espaço, haveria ou não de haver, alguém como ela assim, sempre a se perguntar, em meio a tantos “se”, quem haveria de ser....




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Publicado por Maira Viana Barros em 5:01 PM

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Quarta-feira, Novembro 07, 2007

E na casa da árvore...



E na casa da árvore entretinha-se imaginando a preocupação de todos ao darem por seu sumiço. Com o tempo se acostumariam à idéia de viver sem a presença dela e, sem dúvida, se sentiriam aliviados. Não passariam mais pelo constrangimento de ter que justificar seus modos selvagens, sua costumeira clausura, seu silêncio telepático e aquela velha mania de transformar a vida em teorema. E na casa da árvore veria os anos caminharem lentos no compasso de cada dia de sol, eclipse e tempestade. E cravaria a sorte no tronco espesso que sustentaria seu mundo. E na casa da árvore fabricaria histórias frondosas das pessoas que habitavam as cavernas de seu coração. Plantaria as sementes na certeza de que alguém, algum dia, colheria seus frutos. Aos domingos tomaria chá ouvindo Sinatra num radinho de pilha carregando no olhar a certeza de ter feito as coisas do seu jeito. E já não seria mais necessário contemporizar seus modos bravios, sua reclusão habitual e aquela velha mania de transformar a morte em teorema.






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Publicado por Maira Viana Barros em 5:53 PM

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Árvore